Desde pequenina que sempre vi a dor de muitas pessoas, não as conhecia, mas sentia-me mal por nada poder fazer para as ajudar. Quando eu tinha 8 anos, caminhava sem nunca deixar de reparar se a pessoa tinha cabelo ou não. Cada pessoa que eu visse sem cabelo era um sofrimento para mim, uma angustia...sabia o que aquilo significava, e por vezes confesso que a lágrima vinha-me ao canto do olho. Ainda passei alguns aninhos a frequentar esse espaço, felizmente não por motivos de saúde. Comecei a crescer, comecei a perceber que infelizmente não podemos controlar, comecei a deixar de chorar e em vez disso estar sempre de sorriso pronto. Com os anos o tempo que lá passava foi diminuindo, não queria prejudicar ninguém, então raramente lá ia...até que chegou a altura em que tive os meus 18 anos.
Um dia ia a caminha num corredor com o meu pai e lembro-me que do nada dizer-lhe isto: "vou dar sangue". O meu pai não me pareceu muito convicto, talvez pela forma como lhe tenha contado. Lá me dirigi eu ao segundo piso, vi a placa na porta e pensei para comigo: "É agora que vou poder começar a dar mais que um sorriso para estas pessoas".
A minha confiança, a minha vontade para ajudar era tanta que o medo que tenho de agulhas naquele momento desapareceu. Preenchi a minha ficha, respondi a um questionário e toda contente lá o fui entregar. Seguidamente passei para a sala do Dr. Fez-me tantas perguntas repetidas, mas quando fez a mais importante, ele não a voltou a repetir....talvez porque sentiu que veio do coração, ou porque viu o meu olhar de orgulho. Ao entrar na sala de dadores aquilo foi como se tivesse entrado num novo mundo, onde não existe maldade...foi tão bom não ver a maldade durante meia hora!
Quando chegou a parte da agulha é que foi mais complicado, ou era na minha cabeça...a verdade é que virei a cabeça para não ver e fechei os olhos, em segundos deixou de ser problema. A curiosidade falou mais alto e tive que olhar para a plaqueta a encher, com o meu sangue, com a minha primeira ajuda. Confesso que dei por mim a imaginar o meu sangue a salvar alguém! Tinha terminado a minha dádiva e naquele momento sim, eu confesso, entrei em pânico...eu só pensava como é que uma agulha daquele tamanho ia sair...já estava a pedir ajuda aos santinhos!! Mas saiu em segundos e mal senti (mas confesso que ainda hoje tenho esse medo). Quando deram a minha dádiva por completo, ia-me levantar e espalhar a alegria que estava a sentir, o meu entusiasmo foi tanto que a enfermeira mandou-me deitar e começou-se a rir. Mas a vontade de ir contar que já tinha feito a minha primeira dádiva era tanta que enquanto não me levante, não me calei. E lá fui eu pelo corredor fora, lentamente, com uma ligadura linda no meu braço. As pessoas olhavam para mim, a minha alegria era notória, contagiante. Por momentos senti-me como um raio de sol. Essa alegria foi tão importante que passado 4 meses certos estava eu no mesmo lugar, a dar sangue, novamente. Até hoje já fiz 9 dádivas, e só não fiz mais porque fiz uma tatuagem e um piercing, o que me impossibilitou de fazer pelo menos duas dádivas. Confesso que é um dos meus maiores orgulhos, não só porque estou a ajudar quem precisa, como também pelo simples facto de não ter utilizado os meus 18 anos para coisas fúteis, mas principalmente por o ter feito por iniciativa própria.
Acho que quando dou sangue os meus problemas evaporam, o mundo deixa de ser a preto e branco e esqueço um pouco a tristeza que tem ocupado a minha cabeça e coração.
Contei-vos a minha história como dadora para vos dizer que ontem, dia 30 de Abril fui doar sangue, mas definitivamente a sorte não anda muito do meu lado nem mesmo quando é para ajudar. Primeiro de tudo a rapariga que estava a atender era arrogante até dizer chega (por esse motivo amanhã vai chegar uma reclamação sobre essa Sra.) e depois entro na sala, a Dra, mediu-me a tenção, ficou calada durante segundos e mandou-me fazer analises antes de dar sangue. Assustei-me, nunca me tinha acontecido nada assim, mas tudo não passou de um susto! Dei sangue e finalmente (sim porque à meses que andava para fazer isto) inscrevi-me como dadora de medula óssea. Mas para além de dar sangue, ajudei uma Sra. que ia ser internada, um doce de pessoa, ajudei-a no que podia e despedi-me com um sorriso. Confesso é que ontem fiquei esgotada,eram 10 da noite e parecia uma pedra a dormir! Agora que vos contei mais um pouco sobre mim, vou descansar mais um bocado e vou aproveitar a tarde para namorar. Obrigada por todo o vosso apoio e carinho, isso é muito importante para mim:)
A minha grande vencedora (que não ganhou o concurso) percebeu que a dona não estava muito bem e veio mimar-me, sem dúvida esta menina é a minha paixão. Os olhos pesavam, tive que os fechar durante uns momentos, não, não estava a dormir, mas a Kimara estava. E o dono não perdeu oportunidade.