3.1.14

“Eu queria alguém para desabafar…”

A verdade é que eu sempre ouvi dizer que nada acontece por acaso...e eu cada vez acredito mais nisso.
Comecei a trabalhar numa loja e como deve ser do conhecimento de quase todos vocês é obrigatório por lei irmos a uma consulta de medicina do trabalho. Não fui de inicio e não me perguntem o porquê, porque nem eu sei, mas agradeço, pois hoje poderia continuar na ignorância.
Passado quase seis meses a minha responsável dá-me conhecimento que vou ter consulta nessa mesma semana, senti um nervoso miúdinho, coisa que nem eu sabia explicar porquê, uma consulta meramente de rotina, que de pouco ou nada nos serve.
Acordei bem cedo nesse dia, fui para Lisboa em busca da clínica, antes de entrar estava nervosa e só me questionava o porquê daquilo tudo, era uma coisa normal, que eu já haveria feito várias vezes...entrei, dei o meu nome, aguardei, tremia na cadeira, respirava fundo, até que uma menina chama o meu nome. Entro numa sala, pedem-me para tirar a roupa que tinha da parte de cima e deitar-me, pois ia fazer um electrocardiograma, ao falar com essa jovem acalmei, fiz o exame e mais uma vez estava sentada, desta vez a aguardar que o médico me visse.
Aguardei mais de dez minutos, estava calmamente a ler uma revista quando o médico abre a porta e manda-me entrar. Começa por me fazer perguntas básicas, refere que tenho peso a mais para a minha idade...até que ele abre a carta do exame e questiona-me se estava nervosa, muito calmamente expliquei que na altura em que fiz o exame estava muito calma, ele pouco ou nada contente questiona-me se costumo ter o ritmo cardíaco acelerado, ao que eu respondo que sou uma pessoa bastante nervosa, mas que nunca havia dado conta de tal coisa. Limitou-se a dizer que o meu coração era como um motor de um carro, se puxar demasiado por ele, avaria...ai assustei-me.
Prosseguiu a conversa, mas avisou-me que tinha que ser vista nesse sentido. Passamos para a parte da vista, tinha que dizer as letras que estavam projectadas na parede, estava a dizê-las todas sem qualquer tipo de dificuldade, ele levantasse, colocasse atrás de mim e mexe no meu pescoço, começa pela zona da coluna, até que passa para a parte da frente. Repetidamente ia-me pedindo para engolir, comecei a perceber que algo não estava bem,até que ele avança para a minha frente e diz-me friamente que tenho um grande nódulo na zona do pescoço, que podia ser perigoso e tinha de tratar disso com urgência. Foi inevitável, por mais força que fizesse as lágrimas estavam a querer cair, deitei algumas, mas tentei aguentar ao máximo para não ter um ataque de choro. Ele dá-me um aperto de mão e deseja-me a maior sorte e felicidades. Da sala do médico até à recepção são 2 minutos, por momentos pareceu-me eternidades, queria sair dali, sentia-me perdida, assinei um documento a comprovar que lá estive e sai rapidamente. Fechei a porta e ali...ali entrei em pânico, senti medo, desamparada...liguei aos meus e como é normal ficaram todos em pranto, felizmente tenho pessoas maravilhosas à minha volta que sei que são para a vida toda. Nesse mesmo dia  fui ao hospital, fui vista, não tinha um, mas dois, estimaram que um deles tinha 4 cm e outro 2cm.
Passaram-me rapidamente para outra sala, fui fazer uma biopsia ao de 4 cm, a primeira tentativa correu mal, não acertaram, mas a segunda funcionou. Nesse dia tive o prazer de conhecer ainda mais pessoas maravilhosas que não me largaram a mão, antes de ir embora marcaram consulta para a semana seguinte para saber o resultado. Escusado será dizer como passei essa semana...
A semana passou a passo de caracol, o sofrimento aumentava cada vez mais, até que chegou o dia.
O suposto nódulo de 4cm tinha 3,50cm e era bócio, mas faltava saber o que era o outro, mandaram-me fazer uma ecografia ao pescoço e ai é que o meu coração entrou em sofrimento.
Eu não sou médica, nem enfermeira, mas já fiz algumas ecografias e apercebi-me que algo não estava bem,a médica estava a tirar imagens de vários sítios, apercebi-me que não eram só aqueles dois, havia mais...ao final do dia fiquei a saber que realmente existem mais, tenho vários ao longo da zona frontal do pescoço em que só um tem aspecto duvidoso...o meu coração estava pequenino, fiz-me de forte, não quis que ninguém se apercebesse que estava a sofrer, semana seguinte mais uma consulta me esperava.
Essa semana tentei esquecer isso, ignorar totalmente esse assunto, mas quando estava sozinha o medo apoderava-se de mim, mas eu era mais forte, ou pelo menos queria ser. Chegou o dia, entrei na sala, a operação é inevitável, pois o bócio está demasiado grande e traz-me algumas dificuldades, mas aqueles pequeninos têm que crescer, é necessário ver o que eles são, se são perigosos ou não e por esse mesmo motivo não se marcou operação.
Faltam-me 4 meses de espera para saber se houve desenvolvimento ou não, tenho receio, todos os dias as pessoas vêm-me a sorrir, mas quando chega aquele momento em que estou sozinha, dou por mim a questionar-me um milhão de coisas, assustada e ansiosa. O facto é que nunca em 24 anos nunca me haveriam apalpado o pescoço numa consulta de medicina do trabalho, acredito que nada acontece por acaso.
Precisava de desabafar, deitar tudo cá para fora, é uma forma de aliviar algo que tenho guardado comigo ao longo de dois meses, parece estúpido, mas se soubessem o quanto me soube bem este desabafo....obrigada por estarem desse lado.